sábado, 18 de outubro de 2008

Saudades Eternas!

Ah caramba! Nem parece mas faz 2 anos e 1 mês que ele se foi.
[Já estou com lágrimas nos olhos que agora percorrem meu rosto, impossível falar dele sem me emocionar.]
Sabe, sempre quando me lembro da minha infância não tem como não associar a pessoa mais querida da minha vida, meu vô. Desde que eu nasci, lá estava ele comigo, afinal meus pais compraram a casa ao lado da casa dos meus avós maternos.
Fui criada pelos meus avós até meus 8 anos, tudo bem que o pai chegava cedo do trabalho e me cuidava, mas eu ficava praticamente 24 horas por dia na casa dos meus avós (eu só não dormia lá). Lembro-me quando era bem pequenina, minha mãe saía para trabalhar e me deixava na sala vendo tv, logo a vó chegava com a mamadeira e me levava para sua casa e me colocava na cama entre ela e o vô. Era todo dia assim.
Quando eu fui para o jardim já com meus 2 anos e 6 meses, o vô não queria que eu fosse pois dizia "Essa criança vai passar fome, vai ficar anêmica, vão judiar dela lá..." e coisas do tipo, até porque ele tinha suas preocupações que não eram só de um vô, mas de um pai... Ele queria continuar cuidando do seu 'bichinho'.
Hoje lembro com carinho de tudo que ele fez por e para mim. Como por exemplo, todas às vezes que as nossas cadelas davam cria e ele doava os filhotinhos, dizia que eles tinham ido para um hotelzinho de cachorros [tá eu sei que é tosco demais, mas eu tinha 3 anos de idade, acreditava realmente que eles tinham ido pro tal hotel...], o vô me dizia isso porque sabia que eu ia chorar por causa dos filhotes, e ele não podia me ver chorando... Ou então na vez que ele resolveu criar umas galinhas, elas tiveram pintinhos que por sua vez cresceram até que foram parar no nosso prato, mas para mim eles tinham ido embora voando...
Ele que fez a minha caixinha de presentes do Papai Noel, ele que foi levar a caixa de ferramentas numa tarefa da gincana, ele que ria das minhas palhaçadas e que me fazia rir, era ele que me contava histórias da sua infância na década de 20, que me dizia como era bom morar naquelas fazendas enormes na fronteira e nadar nos rios, ele que brincava comigo na hora do almoço tentando roubar a minha comida, que me ensinou a plantar as nossas árvores, ele que uma semana antes do meu aniversário dizia para minha vó "Celanira, tu já comprou o presente da Chuquinha?", era ele que me dava um abraço apertado quando eu chegava do colégio com o boletim na mão dizendo que estava aprovada, era ele que me ensinava a colher os cachos de uva na nossa antiga parreira, que me disse que colocando sal em cima da lesma, ela morreria, era ele que comia bolinhos de chuva comigo no café da tarde e que me dava golinhos de café preto escondido já que o pai não deixava. Enfim, ele fez parte de toda uma fase que foi a melhor de toda minha vida, a infância.
Lembro-me também, quando fiz a minha Comunhão e falou pra vó que ela tinha que comprar uma roupa bem bonita para os dois.
Foram quinze anos ao lado de uma pessoa maravilhosa, que fazia de tudo pra mim. Quando ele ia no armazém aqui pertinho de casa, sempre trazia alguma guloseima pra mim, o pai não gostava muito, dizia que eu acabava comendo muita porcaria, mas vô é vô não adianta. Às vezes eu aprontava alguma coisa e ele via que a vó ia me dar umas palmadas, ele me pegava pela mão e me levava para a ramada [pra quem não sabe, a ramada é quase toda a quadra em frente a minha casa, cheia de árvores, hortas e afins. O vô plantou quase tudo que tem ali, algumas coisas a vó, outras eu...] só para eu não apanhar da vó.
O tempo foi passando, só que a gente não se dá conta. Eu falo muitas vezes isso, que gostaria de ter sido filha dos meus avós, assim poderia ter vivido mais tempo com meu avô.
Sabe, a maioria dos avós das minhas amigas tem 60 e poucos anos, essa é a idade da minha tia mais velha...Minha vó tem 81 anos, e meu avô falceu com 90.
O tempo passou e o vô acabou adoecendo. Ele tinha lá suas AVC's [acidente vascular cerebral] uma vez que outra, mas sempre se recuperava. Ficava meses no hospital, mas no fim tudo ficava bem. Até que em 2004 ele não pode mais caminhar. Foram mais de dois anos na cama, nós sempre cuidamos dele muito bem, nunca lhe faltou nada. De início minha tia veio pra casa da vó e cuidou do vô, depois de um tempo tivemos que contratar uma enfermeira.
No segundo grau, eu tinha aulas a tarde e meu colégio é perto do hospital. Quando o vô estava baixado e eu tinha alguma aula a tarde, não tinha dúvida, ia até o hospital, almoçava ia pro quarto ver o vô [dava almoço pra ele] e depois ia pra aula. Eu chegava em casa meio-dia, largava a mochila na sala e ia direto pro quarto ver o vô, às vezes eu terminava de dar almoço pra ele, às vezes ele já estava dormindo ou só vendo o jornal na tv. Ia pra casa, fazia minhas tarefas e voltava para a vó. Novamente ia para o quarto vê-lo, às vezes ele não se lembrava que eu já tinha ido ali no quarto, como acontecia algumas vezes dele estar dormindo, eu não o acordava e a tarde quando eu ia ali ele falava que eu devia tê-lo acordado.
Aproveitei o máximo de tempo que pude com ele, mas ainda assim acho que poderia ter aproveitado mais. Ter dito mais que o amava, tê-lo feito rir mais, ter cuidado mais dele...
Sei que fiz o possível e o impossível por ele, tanto que eu estava no 2º ano, era segunda-feira e eu tinha aula a tarde de química [lembro como se fosse hoje], eu almocei no hospital e subi no quaro para vê-lo, a vó estava com ele, eu o abracei forte, disse o quanto o amava e que tudo iria dar certo. Sai do quarto aos prantos, pois sabia que não ia durar muito tempo.
Quem me conheçe sabe que não sou de acordar cedo com pouco esforço, terça-feira eu acordei às 5:45 [o horário que o vô gostava de levantar], olhei o relógio e senti aquele aperto no peito. Quinze minutos depois, ligam do hospital dizendo que a mãe tinha que ir lá assinar umas papeladas de exames do vô, só que a mãe trabalhava no hospital e sabia dos procedimentos quando alguém falecia. Ela não me disse nada, só mandou eu me arrumar, fechar a casa e ir para o colégio e meio dia ela me buscaria. Cheguei no colégio e não consegui entrar, liguei pra mãe e mandei ela me buscar e disse que sabia o que tinha acontecido.
Ela estava na funerária com o pai e minha dinda e meu dindo, sairam de lá e foram me pegar no colégio. Eu entrei no carro, dobramos a esquina e eu falei que queria saber o que exatamente tinha acontecido com o vô e o pai tava dirigindo meio que virou pra mim, colocou a mão na minha perna e disse "filha eles tantaram de tudo, mas infeliz..." ele não terminou a frase e eu desabei. Ele enconstou o carro e a mãe desceu ficou atrás comigo, tentando me amparar. Eu já sabia o que tinha acontecido, mas não queria admitir, aquilo não poderia ter acontecido. Eu fiquei sem chão, como se o mundo desabasse sobre mim, como se eu carregasse uma tonelada em cima de mim..
Fomos pra casa e a mãe deu a notícia para vó, que ficou tão mal quanto eu. Daí aquela função, se trocar para o velório e o enterro. Chorei compulsivamente durante o resto da semana, não consegui ir para a escola.
Fiquei desolada, perdi meu companheiro de histórias, papos e risadas. No mesmo dia fui para a casa da vó, pois ela é hipertensa e eu não queria que ela ficasse principalmente a noite sozinha, tinha medo que ela passasse mal ou algo assim e estou até hoje.
Hoje, a cada conquista minha óbvio que fico feliz, mas um pouco triste por não pder compartilhá-la com ele. Foi assim na minha formatura ano passado, quando eu passei no vestibular, na minha peça de teatro...
Eu que já estava com depressão desde que o vô ficou de cama, com a morte dele me afundei ainda mais, claro que fiz vários tratamentos com 1485743857348 mil psicólogos e psiquiatras diferentes, mas hoje eu estou melhor. Só que o vazio que eu sinto nunca vai ser preenchido, porque ele não está mais do meu lado!
Meu véinho, onde quer que você esteja agora eu sei que está bem e que não está sofrendo como quando estava conosco. É isso que me conforta.
Com 90 anos você se foi, se foi cedo demais. Naquela manhã de terça-feira, 19 de setembro de 2006 às 5:45h.


.lola

3 comentários:

Anônimo disse...

sei que ele leu isso do lugar onde ele está agora e se emocionou orgulhoso da neta que tem

Nikolas Pacheco Müller disse...

Emocionante. Muito legal os laços que você tinha/têm com seu avô.

Anônimo disse...

Bah sei que eh dificil, sinto o mesmo quando penso no Julca.
Eh um vazio gigante que me deixa triste ateh nos momentos alegres porque nao posso compartilhar com ele e eh pior ainda nos tristes porque nao tenho ele pra me ajudar a superar!!
Mais acredito que um dia nos vamos encontra-los e seremos eternamente felizes!!
Te adoro muito Saladaaaa!!
Precisando, chama =)
Beijaooooo!!